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segunda-feira, 1 de abril de 2013

FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA PROF MAURO DE SOUZA

FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA
PARTE 1






1. Contexto

O início da idade contemporânea foi caracterizado por mudanças sociais, políticas e econômicas que tiveram repercussão no pensamento filosófico. Segundo Cotrim; Fernandes (2010) de acordo com a periodização tradicional, considera-se a Revolução Francesa (1789-1799) o marco inicial da época contemporânea. Houve um grande avanço da Revolução Industrial e do capitalismo na Europa ocidental e em diversas regiões do planeta, com muitas inovações tecnológicas e a substituição progressiva das oficinas dos artesãos pelas fábricas. Isso trouxe novas formas de exploração do trabalho humano e a oposição entre duas classes, a burguesia empresarial e os trabalhadores assalariados. Nesse quadro, e na esteira da Revolução Francesa, surgiram novos anseios das populações trabalhadoras, o que depois daria origem às correntes de pensamento socialista e suas lutas. Paralelamente, teve início uma fase de desconfiança em relação ao poder da razão, já que não estaria correspondendo às expectativas da maioria das pessoas para resolver os grandes problemas sociais e trazer a felicidade sonhada.

2. Características

De toda a História da Filosofia, o período contemporâneo é com certeza, aquele que traz em seu bojo a maior polissemia de pensamentos, e isso, em termos, de perspectivas. Podemos vislumbrar essa premissa quando realizamos um voo panorâmico sobre as outras fases do pensar filosófico. A temática fundamental na Filosofia Antiga era a busca pela physis. Na Filosofia Medieval tem-se o debruçar sobre a relação conturbada entre fé e razão; nos tempos de René Descartes, a Filosofia Moderna, volta os seus olhares para a razão e para a ciência, como pontes que possibilitam ao ser humano ultrapassa as fronteiras e descortinar horizontes nunca antes conhecidos. Em contrapartida, o filosofar contemporâneo é um verdadeiro mosaico de ideias, não há ponto de equilíbrio, é mutação, é um vir-a-ser. Os pensadores como navegantes se espalham pela vastidão da existência humana sem portos seguros para atracar.

Ao contrário das filosofias antiga, medieval e moderna, que possuem uma unidade bem delimitada e, assim, apresentam características delimitadas, a filosofia contemporânea, justamente porque não se distancia de nosso tempo, ainda não permite que se tenha uma visão mais profunda de seu conjunto. O que se percebe é que ela é formada por várias tendências e diferentes problemas, sem apresentar, portanto, uma orientação comum que possa vir a caracterizá-la de maneira uniforme. Diz-se geralmente que a filosofia contemporânea começa a partir da crise do pensamento moderno. Se o moderno se funda na soberania da razão, o contemporâneo nasce com a crítica ao racionalismo. Portanto, não há exatamente coincidência entre o período histórico contemporâneo e a filosofia contemporânea. Enquanto o primeiro teve como marco fundador a Revolução Francesa de 1789, a segunda se configurou mais plenamente apenas no final do século XIX. A Idade Moderna foi profundamente marcada pelo racionalismo cartesiano e pelo empirismo inglês, que, associados a processos históricos iniciados nos séculos XV e XVI (como a centralização monárquica, a expansão marítima e a conquista de outros continentes, especialmente a colonização da América), proporcionaram intensas transformações na vida dos europeus, que no plano da sua vida material concreta, que no plano das suas ideias e valores. A percepção do outro, que o contato com sociedades que viviam nas mais diferentes partes do mundo proporcionou, fez com que os europeus fossem elaborando diversas concepções de mundo, algumas radicalmente distintas entre si, cujos reflexos podem ser verificados em muitos campos, como o religioso, o político e o cultural (CHALITA, 2004, p.294).

3. As principias correntes

            As principais correntes da Filosofia Contemporânea são esboçadas por Padovani; Castagnola (1970):
1) O iluminismo representa uma síntese prática, divulgadora, de empirismo e racionalismo. Kant representa-lhe a síntese crítica especulativa, fundindo os dois fenomenismos em fenomenismos superior, daí surgindo o idealismo, que em Kant toma o nome de criticismo. Neste afirma-se, explicita e sistematicamente, a concepção, como dissemos, é a significação profunda do pensamento moderno e contemporâneo, e culmina em Hegel.
2) Ao idealismo (primeira metade do século XIX) opõe-se, no mesmo século, a filosofia espiritualista – tradicionalismo e ontologismo: tentativa desafortunadas para restaurar os valores supremos do espírito humano.
3) Contra o idealismo se insurge também (na segunda metade do século XIX) o positivismo. Este se manifesta em oposição ao primeiro, da mesma maneira que, antes de Kant, o empirismo se manifestava em oposição ao racionalismo. Entretanto, como o empirismo e o racionalismo, no fundo, expressões de um fenomenismo comum, assim o positivismo representa a mesma exigência imanentista do idealismo, mais plenamente atualizada, porém, mediante uma aderência maior ao campo concreto dos fatos.
4) O positivismo declina entre os fins do século [XIX] e os princípios do atual [XX]. Neste tempo aparecem e se afirmam várias tendências filosóficas, que, no conjunto, se denominam filosofias do século XX.  Não obstante a sua variedade, tais tendências pressupõem, geralmente, a concepção imanentista e humanista moderna. Vão-se orientando para um ceticismo e um pessimismo profundos, especialmente perante a falência prática, moral, política das ideologias dos filósofos contemporâneos.
5) As malogradas tentativas da filosofia espiritualista do século XIX, e o fracasso teorético das correntes filosóficas imanentistas determinaram a volta das mais profundas inteligências do mundo contemporâneo, especialmente neste últimos tempos, à filosofia helênico-cristã, justamente definida a filosofia perene do espírito humano e da inteligência. Essa metafísica clássica (chamada também neotomismo, filosofia racional, filosofia aristotélico-tomista) encerra em suas fileiras, a cada dia mais extensas, os mais eminentes pensadores do mundo filosófico contemporâneo.
À guisa de introdução desse tópico, pode-se afirmar que a filosofia contemporânea do século XIX, traz em seu rol, uma riqueza imensa de escolas e pensamentos que vão do romantismo alemão - Schlegel (1772-1829), Hörlerlin (1770-1843), Schiller (1759-1805); ao idealismo – Fichte (162-1813), Schelling (1775-1854), Hegel (1770-1831); utilitarismo inglês - Jeremy Bentahm (1748-1832), Stuart Mill (1806-1873); positivismo de Comte (1798-1857);  pragmatismo de Charles Peirce (1839-1914) e William James (1842-1910), o materialismo dialético - Marx (1818-1883), Engels (1820-1895); as posturas de Schopenhauer (1788-1860), Kierkegaard (1813-1855) e Nietzsche (1844-1900) contra o racionalismo.
Na filosofia contemporânea do século XX, com uma manifestação poderosa surge a fenomenologia de Husserl (1859-1938); a hermenêutica de Heidegger (1889-1976); as filosofias da existência - Gabriel Marcel(1889-1973), Karl Jaspers (1883-1969), Jean Paul Sartre (1905-1980); a Escola de Frankfurt – Horkheimer ( 1895-1973), Adorno (1903-1969), Benjamin (1892-1940), Marcuse (1898-1979) e Habermas(1929-); o estruturalismo de Lévi-Strauss (1908-2009) e Michel Foucault (1926-1984) (considerado por alguns como pós-estruturalista e pós-moderno).


4. A crise da modernidade

Para perscrutar a crise da modernidade, faz-se necessário descrever a visão que os pensadores tinham acerca desse período e suas nuances. Com afirma Aranha; Martins (1993, p.111) o século XVIII é conhecido como Iluminismo, Século das Luzes, Ilustração ou Aufklärung. Como as próprias designações sugerem, trata-se do otimismo no poder da razão de reorganizar o mundo humano. Já no Renascimento, se desenrola a luta contra o princípio da autoridade e a busca dos próprios poderes humanos, pelos quais o homem tecerá ele próprio a trama do seu destino. O racionalismo e o empirismo do século XVII (Descartes, Locke e Hume) dão o substrato filosófico dessa reflexão: Descartes justifica o poder da razão de perceber o mundo através de ideias claras e distintas; Locke valoriza os sentidos e a experiência na elaboração do conhecimento; Hume levanta o problema da exterioridade das relações frente aos termos.

Sem dúvida, o século XIX é o século das ciências e também da revolução industrial, das revoluções burguesas, das grandes transformações urbanas e de profundas mudanças no mundo do trabalho. Foi nesse cenário que se desenvolveu a transição do moderno para o contemporâneo (D’Angelo, 2011, p.11).

As principais afirmações do Iluminismo eram de que pela razão, o homem pode conquistar a liberdade e a felicidade social e política. A razão é capaz de aperfeiçoamento e progresso, e o homem é um ser perfectível. O aperfeiçoamento da razão se realiza pelo progresso das civilizações. Ora, essas verdades não passam pelo crivo dos filósofos contemporâneos. Ora, o marco inicial da modernidade, “o projeto da razão moderna” era conduzir o homem à emancipação, todavia, o que ocorreu foi um vazio, uma ausência de sentido. A razão moderna não realizou o seu projeto.
No rol da Filosofia Contemporânea encontra-se a modernidade. O que era a modernidade? Para Chaui (2010) era o conjunto de ideias e de valores que haviam norteado a filosofia e as ciências desde o fim do século XVIII até os anos de 1980, e que podemos brevemente resumir nos seguintes aspectos:

1. No campo do conhecimento:
  • Racionalismo: confiança no poder da razão (seja como razão instrumental, seja como razão crítica) para distinguir entre aparência e realidade e para conhecer e transformar a realidade. O racionalismo definira critérios que permitiam distinguir entre razão e loucura, ser e parecer ou realidade e aparência, conhecimento e ilusão, verdade e ideologia, e assegurava a validade do conhecimento filosófico e científico;
  • Distinção entre interior e exterior ou entre sujeito e objeto: confiança em critérios e procedimentos que permitiam distinguir claramente entre sujeito ou a consciência (o interior) e o objeto ou as coisas (o exterior), de maneira a assegurar a subjetividade (o pensamento com seus princípios e leis universais e com seus procedimentos teóricos e próprios) como fundamento necessário do conhecimento ou como condição necessária da objetividade como forma do conhecimento verdadeiro;
  • Afirmação da capacidade da razão humana para conhecer a essência ou a estrutura interna de todos os seres, definindo as causas e condições pelas quais é determinada a identidade de cada coisa e sua realidade, demonstrando as relações necessárias que cada uma delas mantém com outras de que dependem ou que delas dependem e oferecendo as leis necessárias de mudança ou alteração de todas as coisas.
2. No campo prática:
  • Afirmação da diferença entre a necessidade que rege a ordem natural ou as leis da natureza e a ordem humana da cultura (ética, política, artes), pois nesta as regras e normas dependem da ação econômica, social e política dos próprios homens. Ainda que a ordem social e política atue sobre os indivíduos como se tivesse a mesma necessidade que a ordem natural, ela pode ser mudada e transformada pelos seres humanos, o que prova que ela é uma instituição humana e histórica;
  • Afirmação de que os seres humanos são indivíduos e agente livres porque são seres racionais dotados de vontade, capazes de controlar e moderar suas paixões e seus desejos e que escolhem por si mesmos as ações que praticam, sendo por isso responsáveis por elas;
  • Distinção entre o público e o privado: estabelecimento de critérios que permitiam distinguir entre a esfera pública ou política (ou o campo das instituições sociais e de poder) e a esfera privada da moral individual (a ética) e da economia de mercado (a propriedade privada dos meios de produção);
  • Afirmação dos ideais da Revolução Francesa – igualdade, liberdade e fraternidade -, reconhecimento de uma esfera de direitos civis – o campo da cidadania – e ampliação desses ideais pela afirmação de direitos sociais, que deram origem aos movimentos sociais de luta contra o racismo, ao movimento feminista e aos movimentos de liberação sexual;
  • Afirmação de um sentido progressivo da história ou de ideais revolucionários de emancipação do gênero humano, com lutas sociais e políticas contra a opressão e a exploração econômica, social, política e cultural.

5. O Romantismo

Sobre o Romantismo existe uma riqueza de perspectivas. Na análise de Chalita (2004) o Romantismo teve início na Alemanha, mas alcançou toda a civilização ocidental e foi como uma febre renovadora para a cultura de modo geral. Atingiu a criação poética e literária com Goethe e Schiller, a música com Beethoven (1770-1827) e Brahms (1833-1897), as artes plásticas com a Escola de Berlim e a de Frankfurt, além da filosofia. O Romantismo nasceu como uma reação, principalmente dos jovens, contra o modelo racionalista apregoado pelo Iluminismo. Foi uma forma de conceber o homem não só como detentor de razão, mas também de sentimento, como propusera Rousseau. Compreendiam, assim, que a aquisição do conhecimento era resultante da interação entre a razão e o sentimento.
O romantismo como um movimento de forças sem proporções se expandiu pela Europa e por outras regiões do mundo, assumindo características peculiares em cada sociedade. De modo geral, o romantismo foi uma reação ao espírito racionalista, que pretendia abraçar o mundo e orientar a sociedade. Captou precocemente a noção de que a racionalização e a mecanização caracterizariam o mundo industrial e intuiu a ameaça que esse processo representava para a expressão humana, tendo em vista que os sentimentos individuais estariam sendo relegados a segundo plano.

Em vez de se limitar a uma interpretação racional da realidade, o movimento romântico que se seguiu imediatamente ao Iluminismo buscou uma dimensão emocional e espiritual em sua resposta ao mundo e à posição do homem dentro dele. Subjacentes a esse desenvolvimento estavam as mudanças sociais e econômicas produzidas pela revolução industrial – em particular o surgimento de uma nova classe de trabalhadores industriais empobrecidos. As condições abjetas a que eles estavam condenados e as divisões sociais assim manifestadas forneceriam o impulso para o desenvolvimento de filosofias socialistas e utilitárias, destinadas a minorar os males da industrialização (LAW, 2011, p.40).

5. O idealismo alemão

O Idealismo é um movimento filosófico centrado na Alemanha durante a época do Iluminismo do século XVIII e início do século XIX. É desenvolvido a partir da obra de Immanuel Kant e está intimamente ligada com o movimento Romantismo. É por vezes referido como kantismo (apesar de que mais corretamente também envolve a aceitação de pontos de vista éticos e epistemológicos de Kant). Em sentido amplo, o idealismo é a teoria de que a realidade fundamental é feita de ideias ou pensamentos. Ela sustenta que a única coisa que realmente cognoscível é a consciência (ou entidades mentais), e que nunca podemos realmente ter certeza de que o assunto ou qualquer coisa no mundo exterior realmente existe. O conceito de idealismo, sem dúvida remonta a Platão. Aqui, ressaltaremos o idealismo pós-kantiano de Fichte e Schelling que desenvolveram a doutrina kantiana, que, no entanto, deram a essa doutrina uma interpretação mais subjetiva e menos crítica e o idealismo absoluto de Hegel que caracteriza a sua metafísica, entendida não em sentido subjetivo, mas absoluto.
O idealismo alemão reteve do romantismo o aspecto do nacionalismo, do amor à pátria, da valorização do povo e do Estado como um organismo, embora seu maior representante, Hegel, combatesse o sentimentalismo romântico” (COTRIM; FERNANDES, 2010, p.253).

6. Fichte

Segundo Japiassú; Marcondes (2006) o ponto de partida da obra de Fichte são os problemas kantianos da fundamentação da experiência e da relação entre a necessidade causal do mundo natural e a liberdade no mundo moral. Posteriormente desenvolveu uma filosofia que prenunciava o idealismo absoluto de Hegel, formulando uma noção de “ego” como um ser ativo e autônomo em um sistema determinado pela Natureza. O “ego” resulta assim de um ato de auto-afirmação da consciência originária, constituindo o mundo objetivo – o “não-ego” – a partir das aparências. Seu idealismo, nesse sentido, dissocia-se da filosofia de Kant, sobretudo por abandonar a distinção kantiana entre objeto e coisa-em-si. Sua ética humanista e seu idealismo prático antecipam certas ideias do existencialismo como o fazer-se do homem por si mesmo.
Qual é o grande objetivo de Fichte? Para Marcondes (1998, p.238) seu propósito principal é formular uma Doutrina da ciência, que começa a elaborar desde o início do século, consistindo em uma filosofia teórica e especulativa, procurando superar a dicotomia sujeito-objeto. Fichte parte de uma teoria do conhecimento que pretende unificar o mundo do sensível e o mundo do inteligível. Seu objetivo final, uma pretensão que terá forte influência sobre Hegel, é atingir o saber absoluto. O modo de acesso ao absoluto é uma intuição intelectual que resulta basicamente de um ato de vontade, anterior ao saber e ao próprio pensamento. Fichte rejeita assim a dicotomia kantiana entre objeto e coisa em si e a inacessibilidade à essência, restaurando dessa forma o papel da intuição intelectual, problematizada por Kant, e revalorizando o pensamento especulativo. Este recurso à intuição como modo privilegiado de acesso ao real terá grande influência nos pensadores românticos e é uma das características centrais do idealismo transcendental.
Para Storig (2009) a base geral do sistema fichtiano está contida nos dois escritos Sobre o conceito da doutrina das ciências ou da assim chamada filosofia e Princípios da doutrina das ciências em seu conjunto – os dois publicados em 1794. A expressão “doutrina das ciências” significa algo semelhante à “filosofia transcendental” de Kant – a qual, aliás, Fichte frequentemente enaltecia como o ato de Kant que marcou época -, a saber: enquanto todas as ciências isoladas tratam de objetos, a filosofia analisa o próprio saber. Ela é, por isso, uma ciência das outras ciências e anterior a elas; e daí “doutrinas das ciências”. Para Fichte, pode haver somente dois sistemas filosóficos consequentes. O que a filosofia tem de esclarecer é, certamente, a experiência, ou seja, a ideia que fizemos da coisa. A representação que fizemos pode, assim, derivar-se da coisa. Disso resulta um sensualismo ou um materialismo, de qualquer maneira um dogmatismo. Ou deriva-se a coisa da representação. Disso resulta um idealismo. Aquele que é dominado pela autonomia e impulsionado para atividades escolherá o idealismo, aquele de natureza mais passiva optará pelo “dogmatismo”. Não resta dúvida de qual caminho será escolhido por Fichte.

7. Hegel
Caixa de texto:  
Figura 1. - Hegel 

Caixa de texto: Georg Wilhelm Friedrich Hegel, filósofo alemão, nasceu em Stuttgart em 1770. O mais importante filósofo do idealismo alemão pós-kantiano e um dos que mais influenciou o pensamento de sua época e o desenvolvimento posterior da filosofia. Escreveu: A fenomenologia do espírito (1807); Ciência da lógica (1816).






Para Marcondes (1998) A obra de Hegel é fortemente sistemática, procurando incluir em um sistema integrado todos os grandes temas e questões da tradição filosófica, da ética à metafísica, da filosofia da natureza à filosofia do direito,da lógica à estética. Pode-se dizer também que se trata do último grande sistema filosófico. Depois de Hegel a concepção de uma filosofia sistemática entra em crise, em grande parte devido às críticas à pretensão hegeliana feitas ao longo do séc. XIX por filósofos como Schopenhauer, Kierkegaard, Marx e Nietzsche, dentre outros. Tentar compreender o sistema hegeliano exige portanto entender sua linguagem própria, altamente técnica, já que Hegel usa um vocabulário técnico (e, segundo alguns críticos, abusa mesmo dele) que possui um sentido específico no interior de sua obra. Além disso, as questões discutidas por ele são sucessivamente retomadas em diferentes obras, sob diferentes perspectivas, que se integram e se complementam. É como se entender uma obra, ou até mesmo um conceito, exigisse que se entendesse todo o sistema.
O pensamento hegeliano mostra o papel da filosofia. Störig (2009, p.399), o conjunto do processo universal é para Hegel um autodesdobramento do espírito. A tarefa da filosofia é analisar esse autodesdobramento pensando. De acordo com a lei da dialética, ele ocorre em três estágios de desenvolvimento. Com eles também é fornecida a estrutura da filosofia. No primeiro estágio, o espírito universal encontra-se no estado de “ser-em-si”. A disciplina filosófica que o analisa aqui se chama lógica. No segundo estágio o espírito encontra-se no estado de “exteriorização”, de “auto-alienação”, de alteridade (Anderssein). O espírito exterioriza-se para dentro na forma da natureza interligada ao espaço e ao tempo. Esse estágio é analisado pela filosofia da natureza. No terceiro e último estágio o espírito retorna da auto-exteriorização para si mesmo. O espírito encontra-se, então, no estado do “ser-em-e-para-si”. Corresponde-lhe, como terceiro estágio da filosofia, a filosofia do espírito.
O que Hegel entende por espírito? Num sentido geral, espírito (Geist, em alemão) é uma atividade da consciência que se manifesta no tempo (ARANHA; MARTINS, 2009, p.185). É Störig (2009, p.402) que expõe a filosofia do espírito de Hegel e mostra como o filósofo concebe os seus argumentos e as suas perspectivas:
O reino do espírito – que se eleva acima da natureza, e, com isso, também a filosofia do espírito – é, por seu lado, dividido em três níveis.
Espírito subjetivo – Hegel designa o nível mais baixo de “espírito subjetivo”. A noção de espírito subjetivo refere-se à vida do ser humano isolado, do indivíduo. É primeiramente no ser humano – e não no animal – que o espírito se torna consciente de si. Aquilo que nos conceitos gerais da lógica se apresentava apenas com algo pensado adquiri agora, a partir do momento que o homem o coloca em sua consciência, e de forma mais específica, realidade. Aqui o espírito é “consigo mesmo” ou “para-si”. Mais exatamente: aqui o espírito começa a passar do estado de “ser-de-fora-de-si” para o de “ser-para-si”. Ele apenas começa, pois o espírito no indivíduo ainda não é real e plenamente ‘para si”. “O ser humano é um ‘estar sendo’ para si, quer dizer, um determinado ser pessoal inconfundível que obtém sua determinabilidade não apenas de seu ser-de-outra-maneira (Anders-Sein) perante outros. Mas o ser humano é também uma espécie e, considerado como exemplar da espécie, ele pertence à “natureza” e é determinado apenas pelo seu “ser-de-outra-maneira”.
Espírito objetivo – o conceito de espírito objetivo também é utilizado hoje em dia. Dizemos que um produto espiritual como, por exemplo, um sistema de pensamento, uma teoria, uma determinada obra, não é apenas “psíquico”, ou seja, não é algo que se esgota por estar contido na mente de seu criador ou de outra pessoa que se ocupa com ele num certo momento. Desprendido da psique (individual), esse produto tem, antes, de ser valorizado como um produto espiritual “objetivo”. Esse emprego do conceito deriva, é certo, de Hegel, mas não transmite o sentido que o próprio Hegel lhe confere. Para Hegel, a doutrina do espírito objetivo significa também ética. O reino do espírito objetivo é para Hegel o da família, da sociedade e do Estado – e a história, na qual aqueles se desenvolvem. Na família, na sociedade e no Estado, o espírito subjetivo personificado no indivíduo isolado entra numa esfera de ordem mais elevada, mais objetiva. Nela ele se encontra sob leis supra-individuais, cuja essência é a ética.
Espírito absoluto – sobreposto aos espíritos subjetivo e objetivo, eleva-se a esfera do espírito absoluto.  É somente nela que o espírito, depois de ter retornado do “ser-de-outra-maneira”, encontra-se plenamente consigo mesmo. Ele está “em sei e para si” (an und für sich). O reino do espírito absoluto está dividido em arte, religião e filosofia.
Assim, sucintamente afirma Aranha; Martins (2009) que o espírito subjetivo é o espírito individual, ainda encerrado na sua subjetividade (como ser de emoção, desejo, imaginação); o espírito objetivo opõe-se ao espírito subjetivo: como tal, é o espírito exterior como expressão da vontade coletiva por meio da moral, do direito e da política. O espírito objetivo realiza-se naquilo que se chama mundo da cultura; o espírito absoluto, ao superar o espírito objetivo, realiza a síntese final em que o espírito, terminando o seu trabalho, compreende-o como realização sua. A mais alta manifestação do espírito absoluto é a filosofia, saber de todos os saberes, quando espírito atinge a absoluta autoconsciência, depois de ter passado pela arte e pela religião.

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