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segunda-feira, 1 de abril de 2013

Filosofia Medieval Prof Mauro de Souza



INTRODUÇÃO À FILOSOFIA MEDIEVAL




1. Contexto

“A filosofia medieval corresponde ao longo período histórico que vai do final do helenismo (secs. IV-V) até o Renascimento e o início do pensamento moderno (final do séc. XV e séc. XVI), aproximadamente dez séculos, portanto. Na verdade, contudo, a maior parte da produção filosófica da Idade Média, o que realmente conhecemos como “filosofia medieval”, esta concentrada entre os sécx XII e XIV, período do surgimento e desenvolvimento da escolástica” (Danilo Marcondes. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1998, p.103).
Ao longo do século V d.C., o império romano do Ocidente sofreu ataques constantes dos povos bárbaros. Os sucessivos e violentos confrontos, principalmente as invasões germânicas, levaram ao esfacelamento. Desenvolveu-se, a partir de então, uma nova estruturação da vida social europeia, que corresponde ao período medieval.
O cristianismo é uma religião que surgiu no interior do império romano, a partir do ano 1 de nossa era, com os seguidores dos ensinamentos de Jesus Cristo. Constituía originalmente uma corrente heterodoxa do judaísmo e, como tal, manteve o que os cristãos chamam de Velho Testamento (as escrituras hebraicas) como parte de seu livro sagrado (a Bíblia), mas incorporou a ele o Novo Testamento (as escrituras gregas), redigido pelos apóstolos e primeiros cristãos durante o século I d.C. (COTRIM; FERNANDES, 2010, p.203). De outro lado, surgiram pensadores cristãos que defenderam o conhecimento da filosofia grega, percebendo a possibilidade de utilizá-la como instrumento a serviço do cristianismo. Conciliado com a fé cristã, o estudo da filosofia grega permitiria à Igreja enfrentar os descrentes e derrotar os hereges com as armas racionais da argumentação lógica. O objetivo era convencer os descrentes, tanto quanto possível, pela razão, para depois fazê-los aceitar a imensidão dos ministérios divinos, somente acessíveis pela fé.
Nesse contexto, a filosofia medieval pode ser dividida em quatro momentos principais:
1) os dos pais apostólicos, do início do cristianismo (séculos I e II), entre os quais se incluem os apóstolos, que disseminavam a palavra de Cristo, sobretudo em relação a temas morais. Entre estes se destaca a figura de Paulo pelo volume e valor literário de suas epístolas (cartas escritas pelos apóstolos);
2) os dos pais apologistas (séculos III e IV), que faziam a apologia do cristianismo contra a filosofia pagã. Entre os apologistas destacam-se Orígenes, Justino e Tertuliano, este o mais intransigente na defesa da Fe contra a filosofia grega;
3) o da patrística (de meados do século IV ao século VIII),que pretendia uma conciliação entre a razão e a fé. Destacam-se aqui a figura de Agostinho e a influência da filosofia platônica.
4) o da escolástica (do século IX a XVI), em que se buscou uma sistematização da filosofia cristã, sobretudo a partir da interpretação da filosofia de Aristóteles, com destaque para a figura de Tomás de Aquino.
Sua característica fundamental é a ênfase nas questões teológicas, destacando-se temas como: o dogma da Trindade, a encarnação de Deus-filho, a liberdade e a salvação, a relação entre fé e razão (COTRIM; FERNANDES, 2010, p.205).

2. Patrística

Segundo Cotrim; Fernandes (2010, p.206), no processo de desenvolvimento do cristianismo, tornou-se necessário explicar seus preceitos às autoridades romanas e ao povo em geral. A igreja sabia que esses preceitos não podiam simplesmente ser impostos pela força. Tinham de ser apresentados de maneira convincente, mediante um trabalho de pregação e conquista espiritual. Foi assim que os primeiros pais da Igreja empenharam-se na elaboração de diversos textos sobre a fé e a revelação cristã. O conjunto desses textos ficou conhecido como patrística, por terem sido escritos principalmente por esses grandes pais da igreja. Um das principais correntes da filosofia patrística, inspirada na filosofia greco-romana, tentou munir a fé de argumentos racionais, ou seja, buscou a conciliação entre o cristianismo e o pensamento pagão. Seu principal expoente foi Agostinho, posteriormente consagrado santo pela igreja católica.

3. Agostinho de Hipona

Segundo Cotrim; Fernandes (2010), Aureliano Agostinho (354-430) nasceu em Tagaste, província romana situada na África, e faleceu em Hipona, hoje localizada na Argélia. Nessa última cidade viria a ocupar o cargo de bispo da igreja católica. Em sua obra, Agostinho argumenta em favor da supremacia do espírito sobre o corpo, a matéria. Para ele, a alma teria sido criada por Deus para reinar sobre o corpo, dirigindo-o para a prática do bem. O pecador, entretanto, utilizando-se do livre-arbítrio, costumaria inverter essa relação, fazendo o corpo assumir o governo da alma. Provocaria, com isso, a submissão do espírito à matéria, o que seria, para Agostinho, equivalente à subordinação do eterno ao transitório, da essência à aparência. A verdadeira liberdade estaria na harmonia das ações humanas com a vontade de Deus. Ser livre é servir a Deus, diz Agostinho, pois o prazer de pecar é a escravidão.
Boas obras ou graça divina? Segundo o filósofo, o ser humano que trilha a vida do pecado só consegue retornar aos caminhos de Deus e da salvação mediante a combinação de seu esforço pessoal de vontade e a concessão, imprescindível, da graça divina. Sem a graça de Deus, o ser humano nada pode conseguir. Essa graça, no entanto, seria concedida apenas aos predestinados à salvação.
A questão da graça, tal como colocada pelo filósofo, marcou profundamente o pensamento medieval cristão. E a doutrina da predestinação à salvação foi, posteriormente, adotada por alguns ramos da teologia protestante (Reforma Protestante). Na mesma época de Agostinho, outro teólogo, Pelágio, afirmava que a boa vontade e as boas obras humanas seriam suficientes para a salvação individual. Seus ensinamentos constituíram a doutrina do pelagianismo, contra a qual se colocou Agostinho. No concílio de Cartago do ano 417, o papa Zózimo condenou o pelagianismo como heresia e adotou a concepção agostiniana de necessidade da graça divina, doada livremente por Deus aos seus eleitos. A condenação do pelagianismo explica-se pelo fato de que conserva a noção grega de autonomia da vida moral humana, isto é, a noção de que o indivíduo pode salvar-se por si só, sendo bom e fazendo boas obras, sem a necessidade da ajuda divina. Essa noção chocava-se com a ideia de submissão total do ser humano ao Deus cristão, defendida pela Igreja. O fato de assim a Igreja ter se pronunciado por tal doutrina assinalou o fim da ética pagã de toda a filosofia helênica.
Uma consequência disso é a forma como se passa a enfatizar a interioridade. Enquanto na filosofia grega o indivíduo se identificava com o cidadão (isto é, o ser humano social, político),  a filosofia cristã agostiniana enfatiza no indivíduo sua vinculação pessoal com Deus, a responsabilidade de cada indivíduo pelos próprios atos e exalta a salvação individual.
Liberdade e pecado - outro aspecto fundamental da filosofia agostiniana é o entendimento de que a vontade é uma força que determina a vida e não uma função específica ligada ao intelecto, tal como diziam os gregos. Agostinho contrapõe-se, dessa forma, ao intelectualismo moral, que teve sua expressão máxima em Sócrates. Isso significa que, de acordo com Agostinho, a liberdade humana é própria da vontade e não da razão – e é nisso que reside a fonte do pecado. A pessoa peca porque usa de seu livre-arbítrio para satisfazer uma vontade , mesmo sabendo que tal atitude é pecaminosa.
Precedência da fé - Agostinho também discutiu a diferença fé cristã e razão, afirmando que a fé nos faz crer em coisas que nem sempre entendemos pela razão: “creio tudo o que entendo, mas nem tudo que creio também entendo. Tudo o que compreendo conheço, mas nem tudo que creio conheço” (Agostinho, De Magistro, p.319).  Baseando-se no profeta bíblico Isaías, dizia ser necessário crer para compreender, pois a fé ilumina os caminhos da razão, e a compreensão nos confirma a crença posteriormente. Isso significa que, para Agostinho, a fé revela verdades ao ser humano de forma direta e intuitiva. Vem depois a razão, esclarecendo aquilo que a fé já antecipou. Há portanto, para ele, uma precedência da fé sobre a razão.
Influência helenística - o pensamento agostiniano reflete, em grande medida, os principais passos de sua trajetória intelectual anterior à conversão ao catolicismo, quando sofreu a influência do helenismo.
1. Do maniqueísmo o filósofo herdou uma concepção dualista no âmbito moral, simbolizada pela luta entre o bem e o mal, a luz e as trevas, a alma e o corpo.
2. Do ceticismo ficou a permanente desconfiança nos dados dos sentidos, isto é, no conhecimento sensorial.
3. Do platonismo Agostinho assimilou a concepção de que a verdade, como conhecimento eterno, deveria ser buscada intelectualmente no “mundo das ideias”. Por isso, defendeu a via do autoconhecimento, o caminho da interioridade, como instrumento legítimo para a busca da verdade.

4. Escolástica

No século VIII, Carlos Magno, rei dos francos coroado imperador do Ocidente em 800 pelo papa Leão III, organizou o ensino e fundou escolas ligadas às instituições católicas. Com isso, a cultura greco-romana, até então guardada nos mosteiros, voltou a ser divulgada, passando a ter uma influência mais marcante nas reflexões da época. Era o período da renascença carolíngia. Adotou-se nessas escolas, a educação romana como modelo. Começaram a ser ensinadas matérias como trivium (gramática, retórica e dialética) e o qradrivium (geometria, aritmética, astronomia e música), todas elas, no entanto, submetidas à teologia. Foi assim, no ambiente cultural dessas escolas e das primeiras universidades do século XI, que surgiu uma produção filosófico-teológica denominada escolástica (palavra derivada de escola).
A partir do século XIII, o aristotelismo penetrou de forma profunda no pensamento escolástico, marcando-o definitivamente. Isso se deve à descoberta de muitas obras de Aristóteles, desconhecidas até então, e à tradução para o latim de algumas delas, diretamente do grego.


Caixa de texto: Os filósofos árabes
Antes da descoberta das obras de Aristóteles em grego, os europeus só conheciam uma pequena parcela de seu pensamento. E o que conheciam vinha de traduções e comentários feitos pelos filósofos árabes, como Avicena (980-1037) e Averróis (1126-1198). Foi por meio deles que suas obras de física, metafísica e ética chegaram à Europa.
 






No período escolástico, a busca de harmonização entre a fé cristã e a razão manteve-se como problema básico de especulação filosófica. Nesse contexto, a escolástica pode ser divida em três fases:
Primeira fase (do século IX ao fim do século XII) – confiança na perfeita harmonia entre fé e razão;
Segunda fase (do século XIII ao princípio século XIV) – elaboração de grandes sistemas filosóficos, merecendo destaque as obras de Tomás de Aquino. Nessa fase, considera-se que a harmonização entre fé e razão pode ser parcialmente obtida.
Terceira fase (do século XIV até o século XVI) – decadência da escolástica, marcada por disputas que realçam as diferenças entre fé e razão.

5. Tomás de Aquino

A filosofia de Tomás de Aquino (1226-1274) – o tomismo – parece ter nascido com objetivos claros: não contrariar a fé. De fato, sua finalidade era organizar um conjunto de argumentos para demonstrar e defender as revelações do cristianismo. Assim, Tomás de Aquino reviveu em grande parte o pensamento aristotélico em busca de argumentos que explicassem os principais aspectos de fé cristã. Enfim, fez da filosofia de Aristóteles um instrumento a serviço da religião católica, ao mesmo tempo em que transformou essa filosofia numa síntese original.
Tomás de Aquino enfatizou a importância da realidade sensorial. Em relação ao processo de conhecimento dessa realidade, ressaltou uma série de princípios considerados básicos, dentre os quais se destacam:
  • Princípio da não contradição – o ser é e ou não é. Não existe nada que possa ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo ponto de vista;
  • Princípio da substância – na existência dos seres podemos distinguir a substância (a essência propriamente dita de uma coisa, sem a qual ela não seria aquilo que é) do acidente (a qualidade não essencial, acessória do ser);
  • Princípio da causa eficiente – todos os seres que captamos pelos sentidos são seres contingentes, isto é, não possuem em si próprios a causa eficiente de suas existências. Portanto, para existir,o ser contingente depende de outro ser que representa sua causa eficiente, chamado de ser necessário.
  • Princípio da finalidade – todo ser contingente existe em função de uma finalidade, de uma “razão de ser”. Enfim, todo ser contingente possui uma causa final;
  • Princípio do ato e da potência – todo ser contingente possui duas dimensões, o ato e potência. O ato representa a existência atual do ser, aquilo que está realizado e determinado. A potência representa a capacidade real do ser, aquilo que não se realizou mas pode realizar-se. É a passagem da potência para o ato que explica toda e qualquer mudança.
Em seu livro mais famoso, a Suma teológica, Tomás de Aquino propõe cinco provas da existência de Deus:
1)      O primeiro motor – tudo aquilo que se move é movido por outro ser. Por sua vez, esse outro ser, para que se mova, necessita também que seja movido por outro ser, e assim sucessivamente. Se não houvesse um primeiro ser movente, cairíamos em um processo indefinido. Logo, conclui Tomás de Aquino, é necessário chegar a um primeiro ser movente que não seja movido por nenhum outro. Esse ser é Deus;
2)      A causa eficiente – todas as coisas existentes no mundo não possuem em si a causa eficiente de suas existências. Devem ser consideradas efeitos de alguma causa. Tomás de Aquino afirma ser impossível remontar indefinidamente à procura das causas eficientes. Logo, é necessário admitir a existência de uma primeira causa eficiente, responsável pela sucessão de efeitos. Essa causa primeira é Deus.
3)      Ser necessário e ser contingente – esse argumento, uma variante do segundo, afirma que todo ser contingente, do mesmo que o existente, pode deixar de existir. Ora, se todas as coisas que existem podem deixar de ser, então, alguma vez, nada existiu. Mas, se assim fosse, também agora nada existiria, pois aquilo que não existe somente começa a existir em função de algo que já existia. É preciso admitir, então, que há um ser que sempre existiu, um ser absolutamente necessário, que não tenha fora de si a causa de sua existência, mas, ao contrário, que seja a causa necessária de todos os seres contingentes. Esse ser necessário é Deus.
4)      Os graus de perfeição – em relação à qualidade de todas as coisas existentes, pode-se afirmar que há graus diversos de perfeição. Assim, estabelecemos que tal coisa é melhor que outra, ou mais bela, ou mais poderosa, ou mais verdadeira, etc. Ora, se uma coisa possui “mais” ou “menos” determinada qualidade positiva, isso supõe que deva existir um ser com o máximo dessa qualidade, no nível da perfeição. Devemos admitir, então, que existe um ser com o máximo de bondade, de beleza, de poder, de verdade, sendo, portanto, um ser máximo e pleno. Esse ser é Deus.
5)      A finalidade do ser – todas as coisas brutas, que não possuem inteligência própria, existem na natureza cumprindo uma função, um objetivo, uma finalidade, tal como a flecha orientada pelo arqueiro. Devemos admitir, então, que existe algum ser inteligente que dirige todas as coisas da natureza para que cumpram seu objetivo. Esse ser é Deus.

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